Sim! Pois tu formaste as minhas entranhas, tu me teceste no seio materno. Eu te celebro por tanto prodígio, e me maravilho com as tuas obras! Conhecias até o fundo do meu ser: meus ossos não te foram escondidos quando eu era feito, em segredo, tecido na terra mais profunda.
Teus olhos viam o meu embrião. No teu livro estão todos inscritos os dias que foram fixados e cada um deles nele figura.(Salmo 139, 13-16).
Quis começar com este salmo porque a minha vocação, como todas as outras, é um dom de Deus. Ele, por meio das mãos amorosas de Maria Santíssima, guiou meus passos. Tirou-me da vida de pecado, protegeu-me de grandes males e trabalhou no meu interior; enfim, Ele é o grande protagonista de minha história. Eu fui, sou e sempre serei apenas mais uma das obras de suas mãos.
Muitos bons exemplos
Minha família é de ascendência italiana e leva em seu sangue a cultura, a religiosidade e muitas outras tradições deste povo. Meus bisavós vieram da região do Vêneto. Meu pai se chama Celito e minha mãe Ivone. Eles tiveram cinco filhos, dos quais eu sou o mais velho. O segundo se chama Sidnei, é casado e tem dois filhos; logo vem Marcos, Daniela e, por ultimo, a minha irmã caçula que se chama Danieli.
Nasci no dia 17 de maio de 1978, em Frederico Westphalen, Rio Grande do Sul. Desde pequeno queria ser sacerdote. Quando me perguntavam o que eu queria ser quando crescer, respondia imediatamente: padre. Este desejo se reforçava com o testemunho que eu recebia de tantas almas consagradas que conheci durante a minha infância, como por exemplo, meu tio Egidio, que é sacerdote palotino, e as irmãs de Maria Menina.
Na escola eu era um menino comportado: era obediente, respeitava os outros e não fazia travessuras graves. Meus melhores amigos eram todos protestantes, mas a religião nunca foi motivo de brigas ou discussões; falávamos de Deus com muita naturalidade e sem preconceitos. No entanto, impressionava-me o fato de que as suas igrejas não tivessem nem sacrário nem Eucaristia; aqueles muros me pareciam vazios e tristes e causavam em mim um sentimento de solidão muito grande.
O tempo foi passando, e quando me perguntavam o que queria ser quando crescer já não respondia com tanta firmeza como antes. O atrativo do mundo e suas vaidades foram apagando em mim o desejo de ser sacerdote. Estudei o segundo grau no Colégio Agrícola de Frederico Westphalen (CAFW). É uma escola técnica na qual se estuda tudo sobre terra, animais e plantas. Fui uma experiência nova para mim: morava no colégio e, com quinze anos, tinha que administrar toda minha vida sozinho: tempo, dinheiro, estudos...
Éramos duzentos alunos. Pela manhã estudávamos
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| O Pe. Leandro recebe o abraço da paz do Mons. Guiseppe Bertello, núncio apostólico na Itália, no dia 29 de junho de 2008, dia da sua ordenação diáconal. | ||
Num retiro espiritual para jovens
A razão, minha única guia, não podia me explicar muitas coisas, e isto me colocava em crise. Cada vez que olhava para o céu e via a vastidão infinita das estrelas e todas as demais obras do Senhor, ficava muito impressionado e a razão era obrigada a se prostrar diante da experiência dum Ser Superior, Criador, que governa todas as coisas. Ao mesmo tempo, as superficialidades do mundo aumentavam cada vez mais a sensação de vazio que sentia em meu interior.
Nestes anos fiz um retiro espiritual em um grupo de jovens de minha diocese que se chama CLJ (Curso de Liderança Juvenil). Esta experiência me ajudou muito e comecei a freqüentar as reuniões que tínhamos todos os sábados na catedral de Frederico Westphalen. Também a minha avó paterna me ajudou bastante: ela faz parte da Legião de Maria; um de seus compromissos é visitar os doentes e sempre que podia me levava consigo. Impressionava-me muito ver como entrava nos quartos dos doentes e sempre tinha uma palavra de consolo e esperança para cada um deles.
Senti que o meu coração ardia
Numa das reuniões do grupo de jovens, apareceu o Pe. Sérgio Barbosa, L.C. Foi o primeiro Legionário de Cristo que eu conheci. Chamou-me muito a atenção ver aquele homem de preto, bem penteado, que tinha estudado em Roma e falava com tanto entusiasmo do sacerdócio e de sua missão. Senti que o meu coração ardia e que renascia no meu interior o desejo de ser sacerdote. Ao terminar nos disse que se algum de nós estivesse interessado na vocação que o procurasse no final do encontro. Eu fugi pela porta dos fundos, tentando me convencer que eu não tinha vocação, que minha vida já estava planejada e que aquilo que eu sentia era fruto de minha imaginação.
Algumas semanas depois um amigo meu do segundo ano do colégio eu estava no terceiro me convidou a um retiro espiritual em Curitiba. Era o único fim de semana que eu tinha livre: nenhuma festa programada, nenhum jantar com os amigos, nada! Outra destas estranhas coincidências de Deus! Dado que Curitiba é uma cidade muito bonita, aceitei o convite. Então o meu amigo me levou a uma sala onde me esperava o sacerdote que estava organizando o retiro. Que surpresa! Ali, diante de mim, vi o Pe. Sérgio, o mesmo que tinha vindo ao meu grupo de jovens! Eu não falei nada de minhas inquietudes e decidi ir ao retiro como turista. Eu e meu amigo tínhamos combinado que aquilo era só um passeio e nada mais.
Ao chegar a Curitiba, ao seminário menor da congregação, vários seminaristas vieram nos receber e nos ajudar com as malas. No jantar percebi que eles ofereciam a comida primeiro a nós e só depois eles se serviam. Agradeciam tudo. Eu contemplava tudo aquilo em silêncio. No dia seguinte saímos de passeio com eles e só falavam bem das outras pessoas; suas conversas eram sobre a sua missão, sobre Deus, a Igreja e sobre a congregação. No sábado pela noite, enquanto rezávamos o terço, no momento em que passávamos diante da gruta de Nossa Senhora, recebi a sãopaulada; Cristo me derrubou do cavalo e não pude resistir à sua graça. Era uma luz tão clara e forte que não deixou sombra de dúvida: Deus me chamava a ser seu sacerdote. Aquilo que sentia quando era criança surgiu de novo dentro de mim, mas agora com um fulgor muito maior. Quando terminamos o terço, chamei o meu amigo e lhe disse: vou ser um sacerdote Legionário de Cristo. Meu amigo ficou olhando para mim com cara de espanto.
Voltei para casa e contei para todos a notícia. Minha avó passou vários meses agradecendo a grande graça que Deus lhe tinha concedido. Meus amigos me escutavam, mas quase nenhum acreditou que eu seria capaz de seguir a Cristo de verdade e para sempre.
As duas coisas que mais me chamaram a atenção naquele seminário de Curitiba foram o espírito de caridade e a coerência de vida. Todos estavam ali para ser sacerdotes e para se entregar totalmente e de forma radical a Deus nosso Senhor. Além do mais era uma entrega toda cheia de alegria que se assemelhava muito à vida dos primeiros cristãos.
Pequenos sinais
O tempo foi passando e Deus manteve acesa a chama da vocação. Ele foi colocando no meu caminho pequenos sinais, aparentemente sem importância, que me enchiam de luz e reforçavam em mim a certeza de que Cristo me chamava.
Um dia eu estava caminhando pelos campos do colégio e senti dentro de mim algo que me dizia: Olhe para baixo. Olhei e vi um pequeno trevo de quatro folhas entre milhões que tinha por ali; abaixei-me e o recolhi. Por que tinha parado ali? Como era possível que meus olhos tivessem encontrado aquela plantinha imediatamente, sem perder um minuto buscando o que seria praticamente impossível encontrar? Uns dias depois enquanto tentava memorizar os nomes científicos, produção, cultivo... de 120 tipos de pastagens diferente para um exame que teríamos naquele mês, parei na frente do canteiro de trevos e comecei a contar a um amigo o que tinha acontecido na outra semana, sobre a historia do trevo de quatro folhas. Neste momento senti no meu interior a mesma voz que me dizia: Olhe para baixo. Pensei, não pode ser! Olhei e vi outro trevo de quatro folhas que o vento balançava de cá para lá no meio de milhões de trevos normais, de três folhas. Apontei com o dedo e disse a meu amigo: Olhe isto! Com a boca meio aberta e para surpresa dos dois, recolhi aquela plantinha e a coloquei junto com a outra. Meu amigo passou um bom tempo buscando outro trevo de quatro folhas naquele lugar, mas não encontrou nenhum. Mais do que a história dos trevos, o que me interessa ressaltar é que nestes momentos eu sentia em meu interior a mesmíssima alegria que tinha sentido em Curitiba, diante de Nossa Senhora, e que a mim e só a mim serviam de sinais com os quais Nosso Senhor confirmava seu chamado.
Vale la pena seguir a Cristo!
Em novembro deste mesmo ano conheci o noviciado dos legionários e esta experiência confirmou minha decisão de entregar toda minha vida a Cristo. Minha família queria conhecer melhor a congregação e meus pais disseram que, se um legionário não fosse a nossa casa para explicar-lhes a história e o carisma da congregação, eles não me deixariam ir ao noviciado. No dia 6 de janeiro de 1996 saí de casa rumo ao noviciado, acompanhado pelo Pe. Luis Pablo Garza, L.C. que fez uns 3000 km para me visitar e me acompanhar a Itu-SP onde eu daria os meus primeiros passos na congregação dos Legionários de Cristo.
Ao entrar no noviciado tive a minha segunda conversão; a primeira tinha sido naquele retiro do CLJ, três anos antes. Fiz uma boa confissão de toda minha vida. Posso dizer que o amor de Deus mudou completamente o meu interior. O dia em que recebi a batina foi um dos dias mais felizes de minha vida. Nesta noite, vendo a batina que eu vestiria nas primeiras horas do dia seguinte, percebi que tudo fazia sentido: Por que Deus tinha me criado? Por que tinha cuidado tanto de mim? Por que nada deste mundo enchia o meu coração? Todas estas perguntas encontravam sua resposta naquela batina que contemplava com grande alegria e entusiasmo. Tinha encontrado meu caminho e queria seguir por ele até o dia em que o Senhor me chamasse a viver para sempre com Ele no Céu.
Os anos foram passando, e agora caminho feliz para a ordenação sacerdotal. Vale a pena seguir a Cristo e trabalhar pela salvação das almas!
O Pe. Leandro Trevisan nasceu em Frederico Westphalen, Rio Grande do Sul (Brasil), no dia 17 de maio de 1978. No dia 8 de março de 1996, ingressou no noviciado da Legião de Cristo em Itu, SP (Brasil). Estudou humanidades clássicas em Salamanca (Espanha). Trabalhou vários anos na pastoral juvenil e na promoção vocacional na região de São Paulo e de Curitiba (Brasil). Estudou filosofia e teologia em Roma, no Ateneu Pontifício Regina Apostolorum. Atualmente esta fazendo mestrado em Teologia Moral em Roma.
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